terça-feira, 25 de novembro de 2008

CRIANÇA NEGRA NA ESCOLA


11/08/2007 Brasil InfânciaAÇÃO AFIRMATIVA PARA CRIANÇAS NEGRAS
O debate, os projetos, ações e políticas de ação afirmativa para pessoas negras no Brasil têm se concentrado na área educacional, especificamente no chamado “ensino superior”.
Desde os cursinhos comunitários dos anos 80 e da pioneira Cooperativa Educacional Steve Biko (1983) até o Geração XXI (1999), primeiro projeto a se intitular como ação afirmativa no país, passando pela política de cotas estabelecida em 15 universidades públicas estaduais e federais, a partir de 2002, fala-se em garantir o acesso à universidade para o povo negro. Por certo, a escolha desta estratégia de enfrentamento das desigualdades educacionais experimentadas pelos(as) negros(as) não se orienta pelo desconhecimento quanto à evasão deste grupo do ensino médio, antes ainda, do fundamental, como gritam os reacionários (e muitas vezes racistas) anti-cotas. Sabemos que somos poucos(as) a prestar vestibular e menos ainda a chegar à universidade. Mas, ocorre que este é um espaço no qual a disputa pelo poder é intensa, onde são formadas as pessoas que dirigirão o Brasil e suas instituições, onde se produz o conhecimento mais valorizado socialmente, onde se adjetivam positivamente certos conhecimentos e repertórios culturais em detrimento de outros.
Esses motivos fazem com que haja um foco especial no acesso à universidade. Além disso, o Governo brasileiro posicionou a questão na agenda política, quando apresentou suas propostas à III Conferência Mundial Contra o Racismo e, em resposta às desigualdades comprovadas pelas pesquisas do IPEA (1), divulgadas no ano anterior, propôs “cotas para negros nas universidades”.Sabemos mais, temos conhecimento de que a cidadania capenga do(a) adulto(a) negro(a) tem início com sua exclusão da educação infantil. Segundo informações de pesquisa realizada pela Profa. Fúlvia Rosemberg em 1987 (2), as crianças brasileiras poderiam ser reprovadas no jardim de infância e na pré-escola, ou seja, antes de chegarem ao ensino fundamental, que é a etapa de escolarização obrigatória. Os dados de pesquisa etnográfica, realizada pela Profa. Eliane Cavalleiro (3), em escolas de educação infantil da cidade de São Paulo, na década de 90, nos dão pistas do pertencimento racial das crianças reprovadas. Ela nos mostra como as crianças negras de 4 a 6 anos são levadas a construir uma identidade negativa em relação ao seu grupo, ao mesmo tempo em que decifra o sentimento de superioridade, assumido pelas crianças brancas em diversas situações e atitudes preconceituosas e discriminatórias, nas quais xingam e ofendem as crianças negras.Diante desse quadro, 3 instituições, a saber: a empresa francesa, Saint Gobain Sekurit, em parceria com o Instituto Kuanza e com o Colégio Barão de Mauá estruturaram o projeto “CRESCER – ação afirmativa na pré-escola em Mauá”, para o qual foram selecionadas 15 crianças negras, nascidas em 1999, residentes em Mauá, cidade próxima ao ABCD paulista, e inscritas na lista de espera das escolas públicas de educação infantil da região. Elas terão bolsa de estudos no Colégio parceiro por um período de 12 anos, da pré-escola à conclusão do ensino médio, além de outros benefícios. O Instituto Kuanza (4) complementará a formação escolar e oferecerá elementos para a construção de auto-estima e identidade positivas das crianças e suas famílias, bem como condições favoráveis ao seu desenvolvimento psico-social, intelectual e cidadão. Desenvolverá uma série de atividades com os(as) integrantes do projeto, com suas famílias, com as demais crianças da escola e com professores(as) – da escola particular e das escolas públicas de origem - ao longo da execução do projeto.
Este projeto de ação afirmativa para crianças negras, da pré-escola à conclusão do ensino médio, soma-se aos demais dedicados aos jovens universitários(as) ou aspirantes à universidade. Não existe antagonismo entre os formatos e públicos, tampouco um é melhor ou mais adequado que o outro. O que temos são estratégias complementares de combate ao racismo e enfrentamento das desigualdades produzidas por ele. Nosso objetivo é subsidiar a sociedade civil para o diálogo com o setor privado sobre a viabilidade de iniciativas similares. Assim, seguiremos a nossa vocação de sugerir ao poder público “maneiras de fazer”, mostrando que as organizações negras têm produzido ações de enfrentamento das desigualdades raciais, merecedoras de estudos para transformá-las em políticas públicas.
NOTAS1 - Instituto de Pesquisa Econômica aplicada, órgão do Ministério do Planejamento. 2 - Anotações da autora feitas durante um “Café Cultural” do Projeto Geração XXI, ocorrido em agosto de 2002, em São Paulo , na Fundação BankBoston.
3 - Do silêncio do lar ao silêncio escolar – racismo, preconceito e discriminação na educação infantil, Humanitas / Contexto, 2000.
4 - O Instituto Kuanza é uma organização de mulheres negras fundada em 16 de fevereiro de 2005, por 16 mulheres negras com significativa trajetória de combate ao racismo e ao sexismo. Sua missão institucional é desenvolver projetos e ações no campo da educação, ações afirmativas, pesquisa, comunicação, juventude e articulação comunitária, que incidam sobre as assimetrias racial e de gênero e subsidiem a formulação de políticas públicas nessas áreas. Outras informações no sítio www.institutokuanza.org.br (em breve no ar)
Cidinha da Silva - Fundadora e Diretora do Instituto Kuanza. Organizadora do livro “ações afirmativas em educação: experiências brasileiras”. Selo Negro Edições / Summus, 2003.Este texto foi publicado em 21/04/2007, no Mundo Negro.
cidinhadasilva@uol.com.br

Fonte: www.mundonegro.com.br
Postado por: Sátira Machado

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